quinta-feira, 11 de novembro de 2010

1 – MEU REFÚGIO


No papel, todos os meus sentimentos. Meu melhor amigo eram os versos, através dos quais expressava o que sentia, viajava sem malas. Escrevia para eternizar minha vida, assim concretizava meus sonhos, quer matizados, quer lúgubres.
Passei minha vida sonhando, mas não me arrependo. Sonhar é bom, pois os sonhos nos incentivam a viver. Contudo, às vezes, a realidade fazia-me pôr os pés no chão de maneira bastante cruel.
Ainda me lembro da primeira música que aprendi. Não fui eu quem a fiz, e tive muita dificuldade para executá-la. Era “Labamba”, de Rich Vallens. Logo que alcancei uma certa segurança, fui me exibir aos meus colegas. Em pouco tempo, eles já não agüentavam  mais me ouvir tocar a mesma música! Por isso me vi frente ao desafio de aprender outras, e treinar, treinar...
Passei muito tempo aprendendo e praticando, parecia que minha vida era só tocar violão. No começo, a dificuldade com a coordenação motora me impedia de executar as músicas que queria. A dor na ponta dos dedos fez-me pensar em desistir, mas logo vieram os calos que, sem dúvida, acabam por nos proteger da dor. Quanto mais calejados ficamos, mais facilmente enfrentamos os obstáculos da vida.
Outra dificuldade inesquecível foram as pestanas das diferentes notas. Elas exigem a habilidade de prender todas as cordas com o dedo indicador aplicado sobre o braço do violão. Porém, como diz o ditado, o tempo traz a perfeição e, pela persistência, eu já me considerava um bom músico.
Crescia em mim a vontade de criar. Já não me satisfazia com o que havia sido inventado por outros. Eu queria algo meu.
Certo dia ouvi um cantor dizer que três acordes bastavam para se fazer uma música. Eu já sabia muitos acordes, com pestanas e sem pestanas. Criei então coragem para fazer minha própria música. E ela tinha quatro acordes!
Era uma manhã chuvosa, assentei-me e compus alguns versos. Na verdade, escrevi para tentar me encorajar, pois a chuva há tempo levara meu alento... Nada parecia animador:

Onde está Você

Vamos parar para pensar,
O que estamos fazendo.
O mundo um dia acabará,
E onde estará você?
Precisamos de coragem para dizer.
Precisamos de coragem para viver.
Se o mundo hoje acabar, onde estará você?

            A música estava pronta. Muito empolgado, fui mostrá-la aos meus amigos, afinal, eu já sabia tocar bem. Essa canção tinha muito valor para mim, cada verso era sincero. Queria que outros também compartilhassem essa minha proeza.
            Todavia, minha alegria durou pouco. Eles riram-se de meus nobres versos e Marcelo, um dos meus amigos, me disse:
            - Ok, agora toque “Labamba”!
            Depois desse dia refugiei-me nos meus versos e em minhas músicas. Era um mundo que me dava liberdade para escrever tudo o que pensava, tudo o que era. E tudo isso era só meu, não mostrava nada a ninguém, minhas canções eram meu diário secreto, o recôndito de minhas intimidades.
            Na rua, todos gostavam de meu violão. Cantávamos de tudo, menos a minha música. Tínhamos um repertório longo: “Será”, da Legião Urbana, foi a primeira que decorei, por ser mais fácil; depois vinha “Lanterna dos Afogados” (Paralamas do Sucesso), “Pra ser sincero”(Engenheiros do Hawaii), “Pais e filhos”(Legião Urbana), “Eduardo e Mônica”(Legião Urbana), “Óculos”(Paralamas do Sucesso), “Marvin”(Titãs), “Faroeste Caboclo”(Legião Urbana), “Love me do” e Can’t buy me love (Beatles) e, finalmente, “Labamba”(Rich Vallens).
Nessa época, acrescentei mais uma música ao meu repertório particular. Estava muito triste e, nada melhor do que compor para tapar o buraco da dor. Em minha mesa, uma caneta, dando forma à canção que revelava as reminiscências de meus oito anos.

Tudo Mudou

Qual é a garantia que temos,
Neste mundo de horror?
Foram maus momentos
Que bom que tudo passou!

Agora que tenho você,
Tudo mudou.
Não quero mais me esquecer,
Você sempre me amou.
A vida passa como o vento,
O que mais poderá acontecer?
No escuro nada é seguro
Mas um fio de luz clareia tudo.

Agora que tenho você,
Tudo mudou.
Não quero mais me esquecer,
Você sempre me amou.

Não quero colher o que plantei,
Quero sementes novas, brotando como o amor.
Pétalas em forma de coração
Na paz de minha oração.    

            Às vezes eu gostava de escrever apenas pelo hábito. Quando falava de amor, isto me parecia algo tão distante, contornava toda uma poesia para tentar dizer algo que realmente desconhecia.
Um dia, um grande compositor disse em rede aberta: “Não existe amor...”. Essa frase calou fundo em minha alma. Não era só eu que não acreditava no amor: ele também, alguém que eu tanto admirava. Tinha em suas palavras o meu argumento. Também não acreditava e não acreditaria no amor. Era óbvio: se o amor existisse, e se fosse bom, não causaria sofrimento, ciúmes, ódio, dor. Não causaria a morte, como no caso de “Romeu e Julieta”. Não haveria brigas. Se o amor fosse bom, não ficaríamos com feridas. É claro que eu só pensava assim porque não conhecia o amor. Mas, naquela época, tal sentimento, ainda vedado a mim, era-me de todo incompreensível, por isso mantive esse pensamento contraditório por muito tempo.
Muitas vezes eu não compreendia o que se passava dentro de mim.
            Para um compositor, ou qualquer adolescente, o mundo gira em torno dos sentimentos. Se estou feliz, tudo ao meu redor reflete esse momento de felicidade; tudo é bom e lindo. Se algo me entristece, a depressão logo toma conta de meu coração e tudo se transforma em melancolia, como se fosse um filme medieval, tudo cinza, tudo trevas. É difícil de se entender as proporções exatas, pois a felicidade é frágil, dura pouco, enquanto que a tristeza é um lago profundo, que nos envolve, podendo até nos afogar com seus tentáculos invisíveis. A vida parece um eterno maniqueísmo, a luta do bem contra o mal.
Eu queria tanto ter um verdadeiro amigo, mas  tinha medo de confiar em alguém. E se ele zombasse do meu talento? Naquele dia, quando exibi minha primeira música, meus amigos riram de mim e essa lembrança sempre me acompanhou, a trazer-me insegurança. Talvez era por isso que, ao invés de cercado por amigos, eu me via cercado por incertezas.
            Naquela época de transformação, quando procurava entender o mundo, não mais através do olhar de uma criança, e nem ainda através do de um adulto, sentia muito medo – o que aconteceria? O que faria de minha vida? Através da caneta escrevia o que queria, o que sonhava, e como via o que queria ver. Mas no mundo real tudo era muito confuso para mim. Queria continuar meus estudos, mas não conseguia definir o que fazer. Queria amar, mas não acreditava no amor. Queria ter um amigo, mas não conseguia confiar em ninguém. Somente uma coisa era certa para mim: sonhava ser famoso, poder tocar e cantar minhas músicas, ser admirado e respeitado pelo que fazia e até mesmo ser rico – afinal de contas, será  que era querer demais?
          Era difícil aceitar que precisava sair de meu casulo. Não conseguia me conformar com as coisas do jeito que elas eram! Queria viver em um mundo onde não seria preciso crescer, eu não queria passar por aquela metamorfose, pois parecia que isso não me traria bons ventos. E, nessa época difícil de minha vida, escrevi mais uma canção para dizer como seria bom se os valores que aprendemos com os nossos pais estivessem presentes nesses momentos conturbados. Nessa época de rebeldia, muitas vezes não compreendemos certos conselhos e nos revoltamos contra certos princípios. Mas, quando crescemos, reconhecemos que, na verdade, somos iguais aos nossos pais.


Opus nº 3
       
Seria bom se os valores fossem iguais,
Seria o fim da busca.
Nunca sou o mesmo, não me afirmo
Seria bom gostar de alguém,
Mas não sou assim.


Não é assim que vejo,
Não é assim que sinto,
Não é assim comigo.

A vida tem dessas,
Quero ficar te esperando
Quero roubar das nuvens o seu mistério
E embalsamar o ontem,
Pois o hoje não dá mais.

Não é assim que vejo,
Não é assim que sinto,
Não é assim comigo.

            Ainda nessa época de transição, levei um golpe do destino: a vida me traíra, a morte prevalecera. Demorei para entender o que estava acontecendo, parecia que o mundo desabara sobre mim, e o fardo era muito penoso. Na madrugada do dia 30 de setembro, expressei minha solidão:

Lágrimas de Setembro

Uma tarde de chuva,
Uma lembrança de Setembro    
Você me deixou,
Nós éramos amigos
Por que foi embora, sem dizer nada?


Brincávamos  juntos
Na praia, na casa e no parque.
Foi essa minha última lembrança:
Uma noite, um “boa noite”.

Por que foi embora, sem dizer nada?
Choro sua falta
Os dias se entristeceram,
Mas a resposta enfim chegou:
Sei que foi Deus quem te levou.

            Tal fato abalou toda a minha estrutura, já tão frágil. Muitos queriam ficar perto de mim, queriam me consolar. Mas o tempo passou, e eles acabaram por se esquecer da minha dor. Cada vez mais introspectivo, queria me distanciar de todos e guardar toda aquela angústia dentro de meu peito. Para mim o mundo era cruel, mas não queria que sentissem pena de minha solidão. Minha mãe parecia deslocada também. Pressenti que ela não agüentaria a falta de meu pai. Mas eu precisava ser forte, mesmo que só nas aparências.
            Passei meses na inércia. O violão era apenas mais um objeto no meu quarto. Mas a caneta estava comigo. Ninguém me conhecia, somente o papel e a minha poesia. Pensando nisso, um dia menti para mim mesmo e resolvi escrever uma canção. A música me veio em sonho, sonhei com a letra, sonhei com a melodia. Acordei, no frescor da manhã, e escrevi:

Ruínas do Coração 

Dunas estranhas, vidas que passam,
Ondas que viajam no mar.
Vidas que passaram, vidas que já se foram
Onde tudo isso vai dar?

Já matei, Já fugi,
Já cansei, Já menti.

E onde está você, minha poesia?
Por que fugiu de mim?
Onde está o amor?
Por que o tirou de mim?

Não sei se vou me curar,
Não sei se vou sobreviver,
Sou assim desde menino...

E o fim, já é passageiro,
Corro como as ondas do mar
Fujo de toda ação,
Escondo-me nas ruínas do meu coração.

            Animei-me a compor, parecia que o sonho me dizia: “Acorde! Tire o pó do violão e faça alguma canção!” E assim fiz, naquele princípio de verão, escrevi quatro músicas.
            A primeira, intitulada “16 de Junho”, fazia-me lembrar de onde encontrar a verdadeira paz, meu tão almejado porto-seguro. (Sempre tive dificuldade para nomear minhas obras! Acabava por colocar o primeiro nome que me vinha na cabeça...)

"16 de Junho"

Com a mesma mão que escrevo estes versos,
Espanco minhas tristezas.
Com a mesma mão que toco essa canção,
Aponto seus erros, e não vejo os meus.

Não compreendo este governo ateu,
Que acaba com as esperanças da juventude
Por que agir assim?
É tão ridículo ser feliz?
Eu sou o que meu coração quer ser.


Quero ir para casa de meu Pai,
Onde posso viver em paz,
E andar em seus eternos jardins,
Recebendo seu perfeito amor.

            E, logo depois, comecei a escrever “Fica algo em nós”. Parecia que eu tinha uma sede de esperança e, por isso, precisava urgentemente expressá-la através do papel e da música.

Fica Algo em Nós

Se o sonho for muito grande, pode acontecer
Basta só acreditar e você será capaz
Imaginar que é bom, persistir na esperança
E então o sonho sai das telas...
Posso até voar se quiser,
E me esconder nos abismos dos oceanos.
Tudo agora é tão real.


Veja, as árvores estão crescendo!
Olhe o mato ao seu redor
Se o mato matasse a morte,
O sonho seria melhor!

Seria capaz de viajar,
Sem tirar os pés do chão.
E a vida vai passando,
Mas estamos longe do fim.

 Lembrar-se dos que se foram
É nunca deixar de amá-los
Tudo um dia vai embora, tudo acaba,
Mas sempre fica algo em nós.

            Resolvi ligar a televisão, no entanto, nada havia de interessante e construtivo. Só via gente imitando gente (e, às vezes, animais...). A moda não tem nada de criativo! Refletindo sobre isso, compus:

MODA

Por que tudo na vida é moda ?
Os ritmos vão e voltam,
E as saias curtas estão de volta.
Os cabelos compridos já foram embora.

Até quando os desenhos japoneses serão moda?
“Ficar” ainda é moda?
Devemos copiar tudo e distorcer tudo?

Vivemos num país sem glórias passadas,
Num país de modas estrangeiras.
Nada do que vejo é original,
Somos apenas cópias descartadas...

            Parecia que essa seria a última do dia, daquele dia que passou num piscar de olhos. Estava satisfeito com meu trabalho, minha inspiração, meus versos. Três músicas estavam no papel mas,  para fechar com chave de ouro, fiz uma introdução com base em Dó maior, e compus:


Este Dia

São só palavras que não caíram bem.
Foi o que disseram,
Foi o que eu disse.
Cada página virada é um capítulo,
É algo que aprendi para o futuro.

São duas escolhas, e eu sigo a melhor
Por isso lembrei-me de dizer “bom dia” para o dia,
Mesmo que a chuva esteja entre nós.

E ao anoitecer, ver que somos felizes,
Pois aproveitamos cada minuto,
E enterramos todas as decepções.

            Era como uma energia que emanava de mim para a caneta, desta, para o papel, e deste, para cada acorde, transformando-os e unido-os a cada nova canção. A música era meu consolo, minha forma de curar feridas.  Ela remendava  meu coração partido, dizendo-me que ainda havia esperança.
            E assim se passaram as semanas, os meses, a roda da vida, repleta de altos e baixos.
            Nos dias em que me sentia num buraco negro, sentava no escritório e escrevia. Os sentimentos sombrios conseguiam aniquilar qualquer esperança. Via as pessoas comendo e bebendo, pareciam tão felizes... Mas não queria ser como elas: meus princípios eram diferentes. Não agüentava ver o show da vida e a forma como as pessoas eram (e são até hoje) manipuladas.
            Quando me sentia mais positivo, saía com alguns colegas, calando em mim aquele desejo de carregar o mundo e suas infelicidades. Com eles, conseguia me esquecer de toda a minha vã paranóia. No entanto, quando sozinho, tudo estava lá, de novo a me atormentar. Pensava que, na verdade, só havia sido realmente feliz na minha infância.
            Quando em companhia de meus colegas, olhava com desprezo para as meninas e os outros meninos de minha idade. Parecia-me que as garotas só se interessavam em rapazes que tinham carros, que usavam roupas de marca, que tinham dinheiro para gastar. Esses, em sua maioria, não tinham muito sobre o que falar, suas palavras resumiam-se em gírias pobres e modas copiadas que nem mesmos podiam compreender. No fundo, eu queria conhecer alguém que pudesse ver além das aparências. Tudo isso me inibia, essa constante incerteza, como se fosse uma venda em meus olhos, boca e ouvidos.
            Disso tudo surgiu:


Não Sei

Como podemos estar acordados
Em um dia como este?
Nada passa na cabeça
Nem o tempo passa...
Dias como este quando queremos
Ver um rosto amigo
Ou só um “oi”, para amenizar a dor .

Venha, eu quero cantar
Não sei bem o que quero dizer,
Nada é tão simples
Para quem não sabe viver.

Não me diga o que fazer
Ainda temos que viver!
Feliz é todo aquele que não vive
Com medo de morrer?
Como vou acordar
Se o dia é para dormir?  
Como vou passar o tempo?
Isso eu não sei.
     

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