quinta-feira, 11 de novembro de 2010

3 – ALDEBARAN


Todas as noites eu gostava de ir até a praia, algo me atraía para lá. Sentava-me na areia e ouvia a natureza, uma sinfonia criada por Deus. Refletia sobre minha decisão de permanecer em Caraguatatuba. Fizera daquela cidade meu lar, como se ela fosse um elo que ainda pudesse me ligar a Lucy. Era utopia, eu sabia, Lucy jamais voltaria. Mas era confortante lembrar que fora lá que tudo começara.
Estava imerso nesses pensamentos quando um vulto atrás de mim disse: “Vai chover, corra!” Havia estado tão concentrado em minhas reflexões que não notara a mudança do tempo. Logo pingos grossos começaram a cair na areia. Não tive escolha, corri para o quiosque mais próximo. Lá estava o rapaz que me avisara  sobre a chuva. Era magro, alto, usava óculos. Sorrindo, ele me disse:

- Gosto de caminhar à noite, e a chuva me pegou de surpresa! – Sorri para ele, concordando. Apresentamo-nos. Como eu era meio reservado, Petrus começou a puxar assunto. Parecia que ele precisava desabafar. Não me importei, havia me simpatizado quase que instantaneamente com ele.

Petrus segurava em suas mãos um papel que, já amarfanhado, tentava esconder. Depois de um bom tempo de conversa, ele sentiu liberdade para me mostrar do que se tratava. Era uma carta de sua namorada, pondo  fim a um relacionamento de quatro anos.
Petrus mostrou-me os versos que rabiscara. Parecia não conseguir chegar a lugar nenhum. Pedi o papel, peguei a caneta, e disse-lhe para esperar dois minutos. Quando terminei de escrever, peguei emprestado o violão do quiosque e, com notas tristes, comecei a cantar:

Chuva pra ti

Trovões e luzes
Pra iluminar ou pra cegar?
Sinfonia de uma chuva
Pra inundar ou pra regar?

Será que ela veio para embalar tua tristeza?
Hoje minhas palavras não te consolam
Na verdade, não chegarão a ti
Elas saem da garganta
Vão do coração para o vazio.

Ainda ouço a chuva, e penso:
Será que não é um recado?
A chuva passa, e a dor também.

Os olhos hoje brilhantes de lágrimas,
Amanhã talvez não mais estarão.
Pois a chuva passa e a dor também.

            Petrus riu, mas sua risada não era zombeteira e, quando terminei de cantar, ele me disse: “A chuva nem sempre passa, mas os ventos a moldam, como as situações moldam a vida”.
            Ele contou-me que desde pequeno sua mãe o obrigara a ter aulas de piano em um conservatório. Portanto, depois de dez anos, ele podia considerar-se um bom músico. Logo tornamo-nos companheiros inseparáveis. Nós nos completávamos: eu tinha o dom de compor e ele, as técnicas e um vasto conhecimento na área musical.
Nada mais me prendia a São José dos Campos. Resolvi dar um novo rumo à minha vida. Com o dinheiro que recebera de herança, comprei duas casas: em uma eu morava e a outra eu alugava. Com o dinheiro do aluguel eu podia ter uma vida razoavelmente confortável e estaria livre para me dedicar ao sonho de minha vida: a música. Começara a ter aulas de violão e aperfeiçoava meus dedos em técnicas mais avançadas. Estava animado. Novamente, o horizonte parecia se abrir para mim.
Meus dias deixaram de ser monótonos. Petrus era meu novo amigo, e vi que podia me abrir com ele. Confiava-lhe minhas canções, que era tudo que me restara. Ele soube ouvi-las com respeito e, através delas, conhecer-me melhor.
            Todas as tardes Petrus ia à minha casa. Ficávamos horas a conversar, falando sobre tudo. Sempre que brotava inspiração, criávamos músicas.   
            Uma noite chamei Petrus para contemplar o céu, em sua imensidão. Fomos à beira-mar e sentamos-nos na areia. Ele levara sua gaita e eu, meu violão. Uma brisa noturna nos refrescava. Eu disse a Petrus:

- O mundo é às vezes meio ingrato! Parece que tudo que amamos nos é tirado, parece que as pessoas ruins é que sempre se dão bem. Às vezes tenho a impressão de que o mal cresce mais rápido do que o bem e que os sentimentos bons, hoje são jóias esquecidas -.Petrus,    solidário, respondeu:
- Não perca as esperanças, estou aqui com você, somos amigos, não somos? Então pare de reclamar, pense um pouco nas coisas boas que nos rodeiam. Existe o mal, sim, mas só quando passamos por situações negativas é que damos mais valor aos momentos bons.

            Petrus sempre procurava me animar quando me via deprimido. Apesar do seu jeito descontraído, eu sabia que, no fundo, ele era mais frágil do que eu. Mas, definitivamente, ele sabia como espantar minhas tristezas. Logo começamos a falar sobre nossos sonhos, e a esperança voltou a brilhar em meus olhos. Daquela conversa nasceu “É tão fácil sonhar...”, uma canção que diz que apesar de às vezes não compreendermos bem o rumo que a vida toma, vale a pena sonhar.

É tão Fácil sonhar...

Você não tem escolha, tudo passará.
A vida toda se transformará
Você não tem escolha, é inexplicável,
Entender o seu bem.

É fácil demais...


Quem vai explicar o que a vida faz?
Quem vai dizer o que vai acontecer?
Quem vai ditar as regras do futuro?

Os bons estão indo embora,
Só nos resta a saudade
Não fique triste agora.

É fácil demais, sonhar com um lugar melhor.
É fácil demais, sonhar com os caminhos dourados.
É tão fácil sonhar...

Não sabemos o futuro
O que guarda para nós
O caminho está aberto

É tão fácil Sonhar...

Nós não sabíamos mas, naquela noite, havíamos criado nosso primeiro “hit”. Não sei o que nos levou ao Quiosque do Pesqueiro, talvez o ânimo da canção nos tivesse contagiado. Só sei que, por um inexplicável impulso, resolvemos pedir licença ao Senhor Hook para subir ao palco. Um grupo bom de pessoas estava lá, afinal, era uma noite muito agradável. No começo, não prestaram muita atenção, mas logo um rapaz gritou: “Cantem mais alto! Essa música é legal!”. Todos se viraram para nós e, sentindo-nos encorajados, soltamos a voz, até então meio insegura e tímida. Cantamos “É tão fácil sonhar...” e, ao término desta, apresentei-nos como “Aldebaran”, e pedi às pessoas que olhassem para o céu. Como a noite estava linda, era possível ver todas as estrelas. Apontei uma e disse:

- Essa música vai para aquela estrela que, nesse momento, está a sorrir para mim -Cantamos “Lindo” e, ao fim do último acorde, recebi um dos melhores presentes de minha vida: o som das palmas, entusiasmadas, pedindo mais.

Depois disso, sentamos-nos para descansar. A sensação fora maravilhosa, e as emoções se tumultuavam em meu coração. Petrus me perguntou: “Que negócio é esse de “Nós somos Aldebaran” ”? Respondi-lhe: “É apenas o nome de uma estrela, mas também o de nossa banda”. Ele me olhou intrigado: “Você está louco!”.
Naquela mesma noite ficamos até tarde à beira–mar, rodeados por algumas pessoas, conversando, cantando. Então alguém nos pediu para fazer uma canção. Peguei o violão e, depois de alguns momentos, comecei a cantar. Logo Petrus me acompanhou no refrão, fazendo a segunda voz:

É Assim

As nuvens escondem o sol
O mar guarda tesouros
Meu peito sente saudades
De alguém que sempre procurei.

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

Os ventos que nos contornam
Nos indicam o caminho a navegar.
O tempo que nos envolve
Permite-nos decolar.           

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

É apenas uma canção à beira-mar
Simplesmente o nosso sonho
Não podemos acampar ou ancorar
Vamos, a viagem vai começar!

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

            Aquela música foi o “pulo do gato”. Como era simples e fácil de decorar, principalmente o refrão, em pouco tempo vi-me acompanhado pelos outros. Parecia só uma brincadeira, mas aquele fora nosso primeiro show, fôramos aplaudidos pelos nossos primeiros fãs e déramos o nosso primeiro passo em direção ao meu tão aspirado sonho.
            Aldebaran tornou-se algo concreto e comentado. Muitos iam ao Quiosque do Pesqueiro só pela curiosidade de nos conhecer, e para comprovar se era verdade o que ouviram de “Fulano”, que por sua vez ouvira de “Beltrano”, e assim por diante. Logo depois daquela noite quando demos o nosso primeiro “show” e por causa da chegada do verão, Sr. Hook nos contratou para tocar no Quiosque do Pesqueiro todas as sextas-feiras à noite. Empolgados, concordamos. Para termos um repertório maior, Petrus e eu criamos novas músicas, e o que ele antes achara loucura, foi se tornando algo cada vez mais possível.
            À pedido das pessoas, gravamos em uma fita cassete “Lindo”, “É tão fácil sonhar...” e “É assim”. Enviamos à rádio da cidade e logo nossos três “hits” estavam tocando por toda cidade de Caraguatatuba. Cada vez que ouvia nossa música, meu coração se enchia de alegria a ponto de quase estourar de emoção. Embora houvesse sonhado tanto com isso, nunca imaginei que pudesse ser assim.
            Petrus e eu começamos a nos encontrar com mais freqüência, afinal, tínhamos agora um motivo a mais para nossa inspiração.
            “Cultura Brasileira” surgiu de uma brincadeira, pois eu fazia um verso e Petrus o outro, como se fosse uma competição. Mas a mensagem estava longe de ser uma brincadeira.

Cultura Brasileira

Vejo crianças nas ruas
Vejo velhos no chão
Morar nesta cidade
Viver nesta solidão.

Andar pelas estradas
Jogar futebol.
Morar em jaulas,
Muros e grades.

Ouvir nossa cultura
Uma eterna Legião
Navegar no submarino
Na Abbey Road,  na contra-mão.

Sentado à mesa,
Com velhas canções
Lembrar do passado
Fazer previsões.

Assistir mais uma tarde
De domingo na TV
O pior é segunda-feira!
Cultura Brasileira...

            Certa manhã, o ânimo se enroscou no pé de minha cama e não queria me acompanhar no despertar. Até os pássaros pareciam tristes, gorjeando sem vontade. Era como se a natureza ainda estivesse adormecida e o sol, escondido atrás de nuvens, parecia-me dizer: “Fique mais na cama, você não precisa acordar ainda...”
            Esticando meu braço em direção ao criado-mudo, alcancei meu caderno e, na penumbra do quarto, escrevi:
 
Pé Esquerdo

Acordar devagarzinho, ver meu quarto no escuro.
O vazio está dentro de mim.
Há de ter um sentido para tudo isso
Não tenho nada hoje, é só um dia ruim.

Não sei o que tenho, nem o que sinto,
Meu livro está no vigésimo capítulo
Minha música está descobrindo o sentido.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...


Hoje não é legal
Hoje tudo é tão banal
Minha voz está cansada
Meus olhos estão fechados.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...

O sol vai surgir agora:
Quem sabe já é o novo dia?
O sol clareia as nuvens,
E brilha nas novas faces
O sol nasceu para mim, e também para você.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...

Mostrei a letra a Petrus e ele, em pouco tempo, criou toda a sua estrutura musical. Sabíamos que seria um sucesso, estava perfeita, linda! Petrus mostrou-me, então, o que escrevera na noite anterior e que “musicara” naquela manhã.


Será algo Comum

Será que eu sou capaz
De cantar a vida e saber
Que o primeiro pecado foi querer
Saber demais?

Será que eu vou lembrar
Do dia em que cresci
E me escondi em meu
Universo de quatro paredes?

Será que veremos
Um mundo melhor
Sem tiras que atiram e
Sem jovens que viajam sem estradas ?

Será que veremos um mundo melhor...?

Com o nosso pequeno repertório, nós nos preparamos para aquela sexta-feira. Os dias pareciam voar. Tudo estava dando certo, nosso futuro parecia promissor.  
Quando chegamos ao Quiosque do Pesqueiro, Sr Hook acabara de abri-lo. Sentamo-nos e começamos a afinar os instrumentos e como tínhamos tempo, repassamos nossas músicas.
Uma hora depois, as pessoas começaram a aparecer. Alguns nós já conhecíamos, outros eram turistas. Às nove horas da noite subimos ao palco.
Havia cerca de cinqüenta pessoas por ali e Sr Hook esperava que mais gente ainda fosse aparecer.
Todos os olhos se voltaram para nós, em expectativa. Apresentei-nos e saudei nosso público. A primeira música foi “É assim”, muitos já sabiam de cor, pois já fora tocada na rádio diversas vezes. É tão bom ser aplaudido! Junto com as pessoas, cantamos o refrão, e as vozes animadas ecoavam pela praia. A próxima música foi “Cultura Brasileira”, eu perguntei às pessoas se elas queriam um pouco de “cultura”...
Petrus assumiu o vocal para cantar “É tão fácil sonhar...” e “Será algo comum”. Quando chegou a vez de “Pé Esquerdo”, ele contou a história de uma menina que queria acordar em um mundo melhor, na esperança de encontrar um sentido para a sua vida.
Voltei ao vocal, Petrus estava atrás de mim com o teclado. Um fundo musical acompanhava meu convite às pessoas para que olhassem para o mar e para as estrelas. “Cada brilho refletido no céu faz-me lembrar de um lindo sorriso. É por isso que digo que as estrelas sorriem para mim” Tendo dito isso, pedi ao Sr. Hook que apagasse as luzes do Quiosque e, envolto por um clima, ao mesmo tempo romântico e nostálgico, cantei “Lindo”. E assim terminou nosso show, as luzes se acendendo e as pessoas aplaudindo, incansáveis, arrebatadas.
A cidade estava lotada de turistas, aquele verão parecia realmente atraente. E como não queríamos cantar músicas criadas por outros, tivemos que nos dedicar cada dia mais, inovando nosso repertório, aperfeiçoando nosso desempenho, pois todas as sextas-feiras tínhamos um compromisso com nossos “fãs” no Quiosque do Pesqueiro .
Então apareceu a oferta para que cantássemos no calçadão da praia Martim de Sá. Eu fiquei meio indeciso, meio inquieto, porém cedemos à insistência. O repertório seria o mesmo. No quiosque tocávamos para cerca de oitenta pessoas, mas eu me indagava: Como será no calçadão?” Esperávamos uma boa receptividade, afinal, nossa fama havia crescido velozmente. Apesar de sermos uma banda só de violão e teclado, éramos uma banda. Confiantes, ensaiamos bastante e nos preparamos para aquele grande dia.      
Nós não éramos os únicos a apresentar naquela noite. Ficamos sabendo que, por sermos iniciantes, abriríamos o show do grupo “Popozuda na Lata”. Para falar a verdade, fiquei bastante decepcionado.
Quando chegou a nossa vez, juntamos coragem e subimos ao palco. O calçadão estava lotado. Meu estômago se contorcia de nervoso, Petrus tremia.
Apresentei-nos, saudei a todos, e começamos a tocar. Contudo, as pessoas não  estavam interessadas em nosso estilo de música, elas queriam agitação. Todos, em uníssono, começaram a gritar: “Cadê a Popozuda?” “Queremos Popozuda!” “Fora!” “Popozuda!” “Popozuda!”.
Eu não estava entendendo bem a situação, nunca passara por algo assim. Pensei em continuar cantando, até que uma lata de cerveja voou e acertou Petrus em cheio na cabeça. Vendo meu amigo cobrindo a testa com a mão, numa careta de dor, a revolta borbulhou em meu peito. Olhando para aquelas pessoas que gritavam pela “Popozuda”, veio-me a inspiração, e bradei no microfone:

CINZAS

Não estamos aqui para sermos trocados
Não nos compare a lixos mortais.
Os meus valores aumentaram
Dou aos porcos, mas não lhes dou as minhas cinzas.
A escolha não é minha, poderia lhes dar a minha obra,
Mas escolheram o resto, para mim resto não serve.
Sinceramente, não calo minha inspiração
Estou escolhendo um novo rumo,
Sei que não é fácil o caminho dos mestres
Mas vejo pobreza  neste lugar.
Vejo arte em minhas trevas, que foram banidas de suas terras
Mas não me peçam  para voltar
As suas ações silenciaram  por um segundo minha poesia
Tenho o resto do tempo a meu favor.

            O silêncio do público foi a resposta que eu esperava. Saí de lá para nunca mais voltar. Certamente as pessoas nem entenderam o meu discurso, mas logo suas expressões  interrogativas deram lugar ao frenesi de “Popozuda na Lata”. Era isso que queriam ouvir, é nisso que muitos se espelhavam.
            Saímos de lá despedaçados. Eu deveria ter ouvido meu coração e não ter ido ao calçadão. Mas o sonho da fama falara mais alto. Na saída, um grupinho conhecido nosso estava nos esperando e pediu-nos para tocar no Quiosque do Pesqueiro. Mas estávamos tão deprimidos e frustrados, que sabíamos que não teríamos condições para cantar depois daquilo que acontecera.
            Passei um bom tempo pensando: “Será que nossas canções são um lixo? Será que não entendemos nada deste mundo? A música tem que atrair pelo ritmo, pela letra ou por dançarinas de grandes nádegas expostas?” Petrus também estava desanimado.     
            Na semana seguinte, Sr Hook telefonou-me dizendo que nos esperava para próxima  sexta-feira. Com muito custo aceitamos. Na verdade, só concordamos porque sabíamos que no Quiosque do Pesqueiro haveria pessoas interessadas em nossas canções. Petrus queria jogar tudo para o alto, mas resolvemos arriscar mais uma vez.
            Naquela sexta, o dia amanheceu nublado, à tarde choveu, e estávamos prestes a desistir de nosso compromisso, achando que ninguém sairia naquela chuva. Mas, como compromisso é compromisso, fomos só para não faltar com nossa palavra.
            Chegamos ao Quiosque duas horas mais cedo, sempre gostávamos de repassar as músicas, para que não acontecesse nenhum imprevisto.
            Em uma hora terminamos tudo, e resolvemos dar uma volta na praia, esperando que as pessoas chegassem, tendo visto que parara de chover.
            Quando voltamos, vimos muitos carros estacionados próximos ao Quiosque do Pesqueiro e qual não foi a nossa surpresa quando uma adolescente, aproximando-se de nós, pediu um autógrafo!
            Já dentro do quiosque, olhamos assustados as dezenas de pessoas que estavam chegando. Pareciam vir de todos os lados, uma multidão se espremia dentro e ao redor do Quiosque. Parecia que “metade” da cidade estava lá, umas trezentas pessoas, talvez, nunca tínhamos visto tanta gente no Quiosque do Pesqueiro!
            Sr. Hook estampava um sorriso de orelha a orelha, mas nós, com o incidente do calçadão ainda fresco na memória, olhávamos nosso público com desconfiança. Não teríamos estrutura para agüentar outro insulto.
            Quando subimos ao palco, um grupo de pessoas começou a cantar “Amanhã  é um novo dia, vai ser melhor...” Eu prendi a respiração, Petrus tinha lágrimas nos olhos. Com a voz embargada, Petrus começou a cantar “ Pé Esquerdo”, acompanhado pela multidão, eu logo entrei com o violão, pois a emoção não me permitia cantar. Ao fim da canção, todos gritavam e aplaudiam. Tocamos todo o nosso repertório e, enquanto cantávamos “Lindo”, notei que as nuvens carregadas de chuva davam lugar a estrelas cintilantes. Lá estava ela, novamente a sorrir para mim. Quem sabe aquilo não fosse um lembrete da esperança...
            Em meio a gritos, assobios e palmas, terminamos nosso repertório. Sob o olhar interrogativo de Petrus, pedi silêncio às pessoas. Disse-lhes que queria ensiná-las uma nova música. Petrus se assustou, pois já havíamos encerrado nosso repertório, e tínhamos combinado nunca improvisar no palco, com medo de que algo pudesse dar errado.
            Não me importando com seu olhar reprovador, comecei a cantar:

Somos Nós

Propaganda de biquíni não tem mulheres nuas
Cachorro de raça não anda sozinho na rua
Finais de novela nem sempre tem sentido
Os bandidos não matam as mocinhas,
Esperam pelo seu próprio destino.

Será que os homens sabem o que é amor?
Ou só sabem o que é paixão?

Toda vez que cai o pão, lambuza o chão
E o ônibus que você espera, demora a chegar
É tudo tão óbvio, basta só se acostumar
E ao olhar a vida, aproveite o dia
O ontem já se foi, o amanhã ainda pode demorar.

            Terminamos o show com muitas aclamações, e com nossa auto-estima elevada às alturas. Ficamos um pouco mais no quiosque, sentados à mesa, poucas eram as palavras, o contentamento falava tudo.
            Foi quando percebemos que um senhor usando uma capa de chuva preta nos olhava insistentemente. Dirigi-lhe um sorriso amigável e ele então levantou-se e veio até a nossa mesa. Mostrando-nos seu cartão, apresentou-se como Sr Boanerges. Era um sujeito meio esquisito, de poucas palavras, gordo, alto, de bochechas vermelhadas e um sorriso enigmático.
            Quando Sr. Boanerges nos fez sua proposta, quase caí  de costas. Minha vista ficou turva, as vozes soavam distantes, e meu coração parecia querer sair do peito. Gravar nosso primeiro disco! Era demais para uma só noite! Disfarçadamente, dei um beliscão em minha perna, mas não estava sonhando - Sr. Boanerges estava ali, em carne e osso, fazendo-nos uma incrível proposta.
            Sr. Boanerges era um empresário, dono de uma gravadora em São Paulo. Viera passar suas férias em Caraguatatuba e, por coincidência, passara perto do Quiosque do Pesqueiro quando estávamos apresentando. Ouviu, parou, gostou. Queria investir em nós.
Era nosso sonho, uma oportunidade singular! Mas havia alguns pequenos problemas: não éramos uma verdadeira banda. Necessitaríamos de pelo menos um baixista e de um baterista. Foi nos dado o prazo de um mês para organizarmos tudo. A outra exigência foi que trocássemos o nome de nossa “banda”: “Aldebaran soa muito esquisito” dissera-nos ele.
            Petrus e eu ficamos de dar-lhe uma resposta, esse contrato poderia ser uma grande chance para a nossa carreira. Infelizmente, para isso, teríamos de abrir mão de várias coisas que eram importantes para nós, como trocar as amadas praias e nossas aconchegantes casas pela metrópole do Brasil, São Paulo.  

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