quinta-feira, 11 de novembro de 2010

5 -O DIÁRIO DE LUCY



Minha casa estava do jeito que a deixara.  Ao ver o mar, uma forte energia encheu meu coração, revitalizando meu corpo cansado e estimulando minha inspiração. Era perto daquele mar que eu queria viver, ouvindo o som enigmático das ondas, sentado naquela areia dourada, sentindo a brisa marinha.
Todos nos conheciam e, por causa do nosso sucesso, muitos vinham nos parabenizar. Refugiei-me em uma praia quase deserta, e deixei as ondas virem de mansinho, beijar meus pés. Em minha mente, já compunha um novo poema:

Novo Dia

Alcance na palma a sua estrela
Que a sua luz negue as trevas
E mostre que podemos desligar a lanterna
E caminhar seguros em seu brilho
Afastando-nos cada vez mais do que se pode ver.

Nunca diga não Àquele que vive,
Não cante aos que não podem viver
É tão fácil amar, quando se conhece o amor.

Longe, do meu lado, com toda essa barreira
Talento que simplifica tão nobre adjetivo
Que desconheço nessa complexa gramática.
A verdade é uma só, na chegada veremos,
Que a coroa está com quem a sustentou.

Já se foi mais um sol, e a terra é a mesma.
As dores não são novidade para quem não sabe amar.  

            Ao voltar, passei na casa dos pais de Lucy. Todos me receberam com muito carinho, afinal, de certa forma, faziam parte de minha família. Dona Carminha sempre me tratara como se fosse seu filho.
            A mesa estava posta, repleta de quitutes, e eu não resisti, fiquei com eles mais um pouco. Todos pareciam tão alegres talvez, quando eu estava lá, eles reviviam, através de mim, um pouquinho da Lucy. Acredito que sabiam o quanto ela fora importante para mim, e o tesouro que significara nossa amizade.
            Depois do lanche, Dona Carminha me chamou para um canto e me disse: “ Preciso mostrar-lhe algo.” Levou-me, então, ao antigo quarto de Lucy e me estendeu um diário, que continha uma dedicatória: “Tudo que é meu, será um dia de Betelgeus.”Lágrimas encheram meus olhos, como se ainda pudesse ouvir a voz de Lucy, travessa, mas ao mesmo tempo carinhosa, dizendo: “Sim, será Betelgeus! Não é perfeito?  Olhe para ela!” E saltitante, segurava minha mão e apontava o céu.
            Fui trazido de volta ao planeta Terra pelo toque insistente de Dona Carminha: “Não é estranho, Belth? Quem é Betelgeus? Lucy nunca teve um amigo com esse nome! Por acaso você sabe quem ele é? Achei que talvez você pudesse solucionar esse enigma, afinal, vocês foram tão amigos...” Com um sorriso melancólico e nostálgico, expliquei-lhe que Lucy e eu nunca nos chamávamos pelo nome verdadeiro. Era uma brincadeira nossa inventar apelidos, entre os quais, nomes de estrelas. Betelgeus fica na Constelação Órion, chamada “Caçador”. É fácil encontrá-la, pois fica ao norte das “Três Marias”, um conjunto de três estrelas brilhantes e alinhadas, que constituem o centurião do “Caçador”, no desenho da constelação. Betelgeus é uma estrela vermelha e gigante, cuja luminosidade é milhares de vezes superior à do sol. É a décima estrela mais brilhante do firmamento. Abaixei minha cabeça e lembrei-me do dia em que ela me chamara de Betelgeus e eu a chamara de Aldebaran. Senti um nó em minha garganta e o coração, de repente, ficou pequenino e apertado. Queria debulhar-me em lágrimas, mas não ali, na frente de dona Carminha. Já fazia quatro anos que Lucy se fora, mas a ferida, mal cicatrizada, reabria-se agora, revelando uma dor e uma saudade profunda. Não queria passar por tudo aquilo de novo, por isso procurei me recompor, ergui os olhos para dona Carminha e tentei balbuciar algumas palavras sem nexo. Ela pareceu não dar importância às emoções estampadas em meu rosto e, alegre, me disse: “Agora posso dormir em paz! Vá em frente, pegue o que quiser, tudo é seu.” Apesar das lembranças deprimentes, comecei a mexer em tudo, muitas coisas eu já conhecia. Achei um guardanapo velho, fotos, mensagens que escrevera para ela e três diários. Resolvi levar apenas os diários e as fotos.
            Já em minha casa, comecei folheá-los e li alguns poemas. Um, em especial, chamou minha atenção:

Águia de Liberdade

Fazer isto é tão fácil
Você aponta o indicador
Abre a boca e corre,
Arrastando a barriga na terra.
Quero fazer um “tour”  na asa da águia
Ter a visão panorâmica que é negada aos restantes
Mas fazer isso é tão difícil...
Teria que entrar na alma de quem me olha 
Ver com seus olhos e vestir seu apertado coração
E chorar as suas lágrimas
Teria que enfrentar o espelho
Que acusa meus defeitos.

            Algumas páginas adiante, vi escrito em letras pequenas, a um canto da página: “Beethoven, eu amo você.” Este era mais um dos inúmeros apelidos que ela inventara para mim. Pela data, sabia que era seis meses depois de tê-la encontrado naquela praia, naquela noite inesquecível. O que me surpreendeu, foi o fato de ela ter escrito que me amava. Nunca verbalizamos nossos sentimentos, com medo de que pudessem nos machucar ou estragar nossa amizade. Não sabia que Lucy me amara. Sempre sonhara com isso, mas nunca ousara declarar-lhe meu amor, a não ser naquele nosso último dia juntos, mas então, já era tarde demais. Ela nunca demonstrou mais do que uma grande amizade, nem mesmo nas entrelinhas. Porém, enquanto lia aquele diário, fui percebendo que ela verdadeiramente me amou, não só como um amigo especial, mas que também tivera medo de se revelar. Comecei a relembrar alguns dias especificados no diário, e pude perceber como eu fui tolo de não ter visto o óbvio, e como fui covarde por não dizer o que sentia. Aquilo me machucou muito, em minha cabeça comecei a fantasiar muitos “ses”.
               Ao ler seu último escrito, não agüentei, rompi em lágrima angustiantes, meu coração estava despedaçado, a injustiça da morte novamente cuspia em meu rosto. As letras do verso se transformaram em um borrão, mas mesmo assim eu continuei lendo:

Romaria para a angústia de meu coração:
Sentei e chorei olhando para dentro de mim
Vi um deserto jorrando sangue
Lamentei ter vivido este episódio
Comprei flores negras para o brilho de meus olhos
A alegria só fica em mim quando meu anjo está comigo
Já suguei toda a energia presente.

É complicado ser um na multidão
Mas a jornada traz alegria
Existe...sim ...existe!

Talvez hoje não o veja mais, mas saiba que sempre te amei
Talvez eu não o veja nunca mais
Mas saiba que te levarei comigo
Meu querido Beltessazar.

            Todos nossos momentos juntos passaram dançando em minha mente, senti-me fraco e impotente perante o destino. Queria desaparecer, evaporar. Mas sabia que a vida deveria continuar, não poderia me entregar àquele pesar novamente. Já fora esmagado demais por aquelas mesmas cenas, que pareciam sempre se repetir, como uma agulha em um disco riscado.
            Tomei, então, uma decisão. Enterrei tudo sob uma grande árvore em cujo tronco, tempos atrás, eu escrevera “Belth e Lucy – Omnia Vincit” (a tudo vence). Não poderia mergulhar naquele poço de nostalgias. O futuro estava à minha frente e o passado deveria ser só uma boa recordação, e não um fardo de saudosismo.

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