quinta-feira, 11 de novembro de 2010

6 - BUSCANDO NOVOS RUMOS



            Como tudo que é bom sempre acaba, as férias não seriam uma exceção. Petrus e eu voltamos para São Paulo e recomeçamos o nosso corre-corre diário. Eu escrevia as letras e Petrus as musicava, estávamos sempre juntos. Eu gostava de palpitar também nas melodias, pois quando fazia uma letra, já tinha em mente o estilo de música que deveria acompanhá-la, uma balada romântica ou um estilo mais pesado. Havia menos compromissos de shows nessa nova etapa, porém tínhamos que nos manter conhecidos.
Desta vez decidimos nos abrir à cidade de São Paulo. Queríamos conhecê-la e compreender toda a sua heterogeneidade. Surpreso, pude ver música na fumaça, no ritmo das pessoas, nos arranha-céus, na própria vida rápida da cidade. De repente percebi que existem certas coisas que, se não nos adaptarmos à elas, enlouquecemos.
            Portanto, saíamos diversas vezes por semana, de dia e à noite. Íamos aos shoppings, às praças, aos parques. Porém, o que nos atraía de verdade eram os cinemas, o teatro, e  os diversos shows, realmente São Paulo era uma cidade que não dormia.  Petrus conheceu uma garota chamada Pércila mas, para mim, era difícil achar uma companheira, eu era muito complicado, além disso, outra pessoa já tinha a chave do meu coração.
            Contudo, as emoções daquela “Paulicéia desvairada” logo foram substituídas pela seriedade do nosso compromisso com a gravadora. Precisávamos criar novas canções, ampliar nossos horizontes. O que mais me estimulava era ouvir nossas músicas sendo tocadas na rádio; “É tão fácil Sonhar...” era a mais requisitada.
            Comecei a trabalhar, em casa, nas novas letras de Aldebaran. Queria falar de coisas simples mas, ao mesmo tempo, trabalhar com uma visão mais filosófica: amor, justiça, paz. A primeira canção foi “Marcas Passadas”. A inspiração me veio quando vi, em uma construção abandonada, o escrito “Luize & Marcel”, dentro de um coração, quase apagado pela influência do tempo no cimento antigo. Pensei comigo mesmo: “Será que eles ainda estão juntos ou essas são só marcas do passado?”.

Marcas Passadas

As marcas no cimento secaram,
Uma mensagem de amor para você.
Nessa dura pedra que não é meu coração.
Secou-se aquela emoção

Quando olho as ruínas e as pedras.
Lembro-me de quando estive com você.
Foi o que sobrou de nossos dias,
Aquele antigo escrito de amor.

A árvore tem a sua cicatriz,
A ferida que fiz por você.
O seu sangue por uma tatuagem
 Marca de nosso doce amor.


Em um móvel em meu quarto
O resto de nossos dias.
Há na gaveta uma velha marca,
É a lembrança de quem um dia te amou.

As marcas duram para sempre.
Enquanto os dias não voltam mais,
Somos somente marcas
Que ficaram para trás. 

            Sentia-me muito inspirado, havia uma necessidade desesperada de expressar meus sentimentos e pensamentos.  O país estava passando por uma crise política e cultural, tudo era completo desânimo.
            Os pontos de referência ou estavam mortos ou haviam desaparecido. Para piorar as coisas, o governo punha no nariz do povo uma bola vermelha. Eu não podia ficar calado, eu não era um palhaço, então escrevi:

Vulto Sagrado

A maldade é apenas parte de um lado,
E as virtudes que clareiam, hoje estão em guerra.
Sorteamos a culpa,  ela caiu em mim.
Na realidade, não somos tão bons assim.

O amor está longe do ódio;
A paz já pede para guerrear;
A luz clareia as trevas;
E o sol esconde o luar.

Somos filhos dessa grande nação.
Que não sabe o filho que tem.
Não tem nome e nem história
Nem o lampejo rubro da aurora.

Acha “irmãos tiranos” hostil?
Contemplando o teu vulto sagrado,
Verás que um filho teu não morre em vão.


            Petrus apareceu com uma canção feita a Pércila, ela o deixara sem dar nenhuma explicação, e nunca mais tivemos noticias dela. Como num flashback, veio-lhe à mente a lembrança de todas as mulheres que passaram por sua vida:

Sem Sofia

Estás tão longe agora,
Ainda me lembro de nossa história.
Éramos só crianças, e agora só há distância

No verão os dias são melhores
Esqueço-me dos ventos que te levaram.

Uma médica passou por mim
E retirou algumas lágrimas.
Cansei de Educação Física,
Fui fazer Fisioterapia,
E me enganei na sala de Advocacia.

A chuva veio, e eu sem entender.
Por que foges de mim ?
Dei voltas na mesma estrada
Tudo foi embora.
Os remédios não funcionam mais.

O pé-de-pato foi embora
Amizades que não esqueci
O amor foi embora
Mas dele  não me despedi.

            Começamos a ter alguns desentendimentos quando Petrus monopolizar as letras de nossas músicas. O que me deixou chateado foi o fato de ele já trazer tudo prontinho, títulos como “Drink do Inferno”, que saiam um pouco do nosso estilo.
            Eu comecei, então, a podar suas inspirações, e a tentar conquistar de volta meu lugar como letrista. Mas isso logo passou. Voltamos a nosso antigo esquema após um complicado consenso, animados como nunca – também, quem não tem um pouco de turbulência nas águas de sua vida? Faz parte da emoção, muito sossego cai no marasmo...
            Havia uma grande cobrança por parte da gravadora. De manhã, logo que acordava, no auge de minha inspiração, aproveitava para escrever. À tarde, às vezes, saía pela cidade, admirando o grande laboratório que é nossa metrópole, com todos os seu ruídos, vibrações, agitação e novidades. Eram poucos o shows que fazíamos, quase sempre em lugares muito pequenos, para uma platéia menor que o lugar. Sabíamos que Aldebaran deveria  reaparecer com força, por isso tínhamos que apressar o novo repertório, colocar uma nova música na rádio e lançar um novo disco.  
            Certo dia, numa dessas caminhadas, passei por um lindo jardim, com um grande lago – era um parque. Sentei-me num banquinho, à beira do lago, e fiquei a olhar aquela água toda. Logo me veio à cabeça um barquinho, a oscilar na superfície da água, e uma serenidade, mesclada à uma sensação de vazio, encheu meu coração. Pensei comigo mesmo que as águas eram como a vida; levavam-nos, os barquinhos, para onde quisessem, eram capazes de criar pânico, e ao mesmo tempo prover abundância e alegria. Olhei as pessoas que passavam por aquele trecho do parque: casais de mãos dadas, crianças brincando nos balanços. Os patos mergulhavam suas cabeças no lago, o sol brilhante refletia-se na água, o céu era de um azul impressionante. Mas meu coração não condizia tal beleza. No meu caderno de anotações (que sempre carregava por toda parte), rascunhei os seguintes versos:


 Navegar

Navegar em ruínas,
Ancorar em dúvidas do passado,
Lembranças que o tempo não levou,
Marcas que o tempo não apagou.

Navegar a favor do vento,
Sem velas, sem motores,
As ondas que me esperam,
Me levarão a algum lugar.

Palavras complexas que não sei falar,
Sonhos que ninguém pode acordar,
Lembranças e histórias que continuam a navegar.

Navegar a favor do vento,
Sem velas, sem motores,
As ondas que me esperam,
Me levarão a algum lugar.

            Levantei-me, caminhei mais um pouco, e decidi passar na casa de Petrus. Há alguns meses Petrus decidira morar sozinho, queria mais privacidade. Encontrei-o totalmente bêbado, numa plena quarta-feira, às três horas da tarde. Olhei para ele em estado de choque: não falava coisa com coisa, estava todo desalinhado, a casa era uma bagunça só. Havia fotos rasgadas por toda parte, cacos de louça quebrada espalhados pelo chão. Passei o resto da tarde com ele. Um café bem forte e um banho gelado, para começar, depois uma conversa séria e franca. Parecia que Petrus estava entrando em um mundo confuso e depressivo. Mas, depois de muitas palavras e lágrimas, ele decidiu levar a sério o compromisso do nosso trabalho – não tínhamos tempo a perder.
            Naquela mesma noite fizemos duas músicas novas, que receberam toda a carga do nosso espírito revitalizado e esperançoso.

A Pedra


Rolei na cama até às duas.
Sonhando com o lado selvagem.
Não vi o bom anjo, nem o anjo mal.

Queria tanto te contar,
No final da tarde,
No começo da noite, tanto faz.

Como as estrelas te fizeram doce?
Todos os meus amigos já sabem,
Que a gente ama sem escolher,
E que o nosso blá-blá-blá
Eu chamo de prazer.

Sua pedra acerta a vidraça,
Toda vez que você me agrada,
Sem se trair.

Então vamos lá,
Vamos cruzar a linha,
Vamos passear pelo lado selvagem.

            Existem muitas maneiras de se comunicar: através de um olhar, de um gesto, de um poema, de uma flor, de um sorriso. Porém, é importante que essa comunicação seja do coração e, portanto, repleta de sentimentos, mesmo que estes não sejam tão bonitos, perfeitos ou felizes. Era isso que nós queríamos transmitir: a nossa música tinha que ser diferente, e era necessário que as pessoas reconhecessem essa diferença.
            A segunda canção que fizemos fala de amor, de como é bom relembrar dos velhos tempos, da época em que sentávamos na calçada e tocávamos violão com os amigos.

R  ao Quadrado

De todos os desejos que havia em mim,
Em todas as estradas que corri,
O vento forte bateu em meu peito,
Lembrando-me daquele veraneio.

Com o violão eu canto suas canções,
Poemas sobre a vida, sobre o amor.
A alegria, nessa vida, não foi o seu forte.
Mas as letras fortes nos deram forças,
Para entender esse mundo complicado de viver.                     

Caímos no sono, e o  que vem agora ?
Não há nada de novo em nossa história.
Afinal, falamos sempre do que já foi falado,
Aprendemos tudo isso com você.

            Deixamos de lado todos os nossos problemas pessoais. Trabalhamos a finco. As letras brotavam, a imaginação fervilhava.
            Quando escrevi “Isso é bom para mim”, pensei nos meus antigos livros empoeirados, nas lendas, nas histórias de povos que passaram por aqui, mas que, para muitos, é como se nunca tivessem existido.




Isso é bom para mim.

São apenas lendas que contam,
Nada se transforma em realidade.
Mas o mal cresce entre nós,
Matando os meninos com sua voz.

Nada é como antes, na inocência,
No sorriso há uma carga anormal.
Acabaram-se as brincadeiras de ciranda,
Tudo é show, tudo é festa, tudo é carnaval.

A terra hoje chora a imoralidade,
Tudo é tão comum para as crianças,
Os meus medos hoje servem de brinquedos,
Pois o respeito já se foi há muito tempo.

As múmias hoje não falam,
Foram trocadas por canais de TV.
A poeira faz bem para mim,
Pelo sopro faço tudo novo.
E isso é bom para mim.

            Entramos no estúdio no fim daquele ano. Já tínhamos sete músicas prontas e precisávamos “desenferrujar” a banda. Ensaiamos durante um mês, mas ainda tínhamos que escrever algumas músicas para completar o repertório. Gravamos aquelas que já estavam prontas e, em busca de mais inspiração, resolvemos passar uma semana em Caraguatatuba.
 

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