quinta-feira, 11 de novembro de 2010

8 – NOS DEGRAUS DA VIDA



            A primeira música que surgiu nessa nova fase, pós-Wendy, foi “Peregrino”. Essa é uma canção meio saudosista, que fala de esperança e de como seria bom ter uma vida comum – crescer, casar-se, ter filhos e seguir o curso natural da vida.

Peregrino

Caras novas e velhas terras
Perdidos, não sabem onde estão.
Não quero me apegar a tanta gente
Quero algo próprio para mim.

É apenas o começo para nós, peregrinos,
Que caminhamos em terras estranhas.
Um dia quero acordar e poder ver a vida ao meu redor
Quero meus pratos limpos
Em dias comuns, chuva e sol. 

Acordar de um sono pesado,
Cheirar o mais doce perfume que há
É simples como trocar de meias
É mais belo que o luar.


            A segunda música surgiu de algo que  vi em uma praça, onde passeava com  Wendy quase todas as manhãs. A cena de  um garoto assaltando um senhora idosa,  provavelmente atrás de algum dinheiro para comprar drogas ou comida, deixou-me muito abalado e pensativo. Comecei a filosofar alto, como se Wendy pudesse me compreender. Esta, só levantou os olhos para me dirigir um sorriso angelical, logo voltando a entreter-se com seu novo velotrol. “O nosso mundo contém  algo que o nega, já nasceu assim. E, ao passo que o mundo cresce, cresce também essa negação. Mas quando a casca do tempo se rompe, a negação transforma-se em afirmação, que por sua vez carrega dentro de si um novo  embrião de negação. Esse é o ciclo da vida, como um ovo, e dele nasce  um ser que bota outro ovo, e assim por diante. Somos todos iguais.”

Dialéticas

A terra está doente.
E somos o vírus que a consome
Crescemos com seu leite
No seio da pátria mãe.

O medo vem por não entender
E destruímos por temer
A morte é apenas o processo para nascer
A vida nasce para morrer

O núcleo destrói para nascer
Mas sempre haverá núcleos para crescer
É assim que a vida tem que ser.

O amor está em nós,
Mas até onde isso vai?
Não nega a própria sorte
E até quando durará?

O medo vem por não entender
E destruímos por temer
A morte é apenas o processo para nascer
A vida nasce para morrer

O núcleo destrói para nascer
Mas sempre haverá núcleos para crescer
É assim que a vida tem que ser.

            Belas melodias começaram a fluir, mas a temática de nossas novas canções, parecia não querer colaborar. As letras eram difíceis de musicar, além disso, Petrus não contribuía nada com seu jeito distante e perdido.
            A princípio não dei muita importância a essa nova crise existencial de meu amigo. Quando finalizássemos as gravações e começássemos os shows, ele reanimaria.
            As novas músicas de Aldebaran ficaram assim:  1) “Flores” – uma canção lenta, cujas batidas lembram uma carruagem deslizando velozmente numa estrada medieval, os sinos avisando a funesta chegada da Peste; 2) “Rainha” foi feita seguindo o estilo  do Hino Nacional, ela lembra uma busca e um desespero em relação à Pátria; 3) “Águia de Liberdade” (de Lucy): a melodia nos faz pensar que a  vida é como uma taça de cristal, suspensa acima de um precipício por um delicado e transparente fio de seda. A bateria soa  como um terremoto, querendo despedaçar a taça, e a guitarra parece um vento chicoteando-a; 4) “Alice” é cantada por um coral dividido em várias vozes. A impressão que temos é que estamos em um mosteiro antigo; 5) “Novo Dia” parece uma cantiga de ninar, Wendy me acompanha no refrão, com sua vozinha doce e infantil; 6) “Dialética” é um rock estridente, ácido, como se pudéssemos sentir um vírus no ar; 7) “Peregrino” é a contradição do disco: voz e violão são tão suaves que podemos realmente “cheirar o mais doce perfume”.; 8) “16 de Junho” foi escrita na minha adolescência, e a nossa “Here comes the sun”; 9) “Onde está você” nos faz lembrar daqueles dias de chuva insistente, quando resolvemos ouvir um disco antigo dos anos 60; 10) “Ruínas do Coração” é uma música alegre, que nós faz sentir um desejo de realizar o irrealizável, a melodia contradiz um pouco com a letra; 11) “Cinzas” – um fundo musical no teclado que lembra as ondas do  mar batendo fortemente nas pedras, e minha voz recitando os versos.

            Nesse segundo disco, deixei Petrus como vocalista principal. Somente quando necessário, eu entrava com a segunda voz. Achei que fazendo assim, poderia ajudá-lo a se esquecer de suas constantes depressões, quem sabe assumindo  mais responsabilidades, ele se dedicaria mais ao  trabalho.
            Contudo, a cada dia que se passava, Petrus se distanciava mais de nós. Chegou um momento em que eu o via somente no estúdio, pois, quando ele voltava à noite, nós já estávamos dormindo.
            Nos fins-de-semana ele desaparecia, nem sequer me avisava para onde ia. Apreensivo, tentava me aproximar dele, mas Petrus, sempre se esquivando, tratava-me rispidamente. Os ensaios, que antes eram um prazer, estavam ficando insuportáveis, Petrus não dialogava e tudo era motivo para explosões e insultos.
            Wendy parecia não se importar muito com a ausência de seu pai. Sempre comigo, ela brincava no teclado, fazia gracinhas e, muito viva, dizia coisas espirituosas aos componentes da banda, fazendo todos rirem. Wendy e eu éramos tão apegados que no fim, ela começou até a dormir em meu quarto, algo que permiti por medida de segurança quando Petrus voltava  para casa embriagado.
            Assustado, eu via Petrus se degenerar cada vez mais. Ele não se parecia com aquele meu melhor amigo, companheiro de tantas aventuras. Soturno, começou a faltar aos ensaios e se entregou por completo à bebida, tornando impossível finalizar as gravações. Eu tentava ajudá-lo, mas meu coração se dividia entre amparar meu amigo e poupar Wendy de certas cenas tão repugnantes. Petrus já não se importava com ninguém, nem sequer olhava para a filha, aliás, eu não deixava a menina chegar perto dele em tais condições. Toda a responsabilidade dela caiu sobre mim.
            Eu não sabia o que fazer, meu repertório de desculpas já estava se esgotando, e eu não podia mais adiar ao Sr Boanerges a realidade de nossa situação.
            Petrus chegava em casa só para dormir e como geralmente estava bêbado, era, portanto, incomunicável. Ele estava perdendo os melhores momentos da vida de Wendy. A menina não entendia minha tristeza e, na sua inocência, trazia-me flores para me ver sorrir.
            Certa noite eu quis conversar com Petrus sobre a festinha de aniversário que estava planejando para Wendy. Tentando animá-lo, disse-lhe que seria no domingo seguinte e perguntei-lhe se ele queria ir conosco escolher o bolo de aniversario e a decoração para a festinha. Enraivecido, ele gritou comigo: “Pensa que eu não sei quando minha filha nasceu? Não se esqueça que ela é MINHA filha! Cuide da sua vida e vê se me deixa em paz!” Surpreso com esta explosão, fiquei sem ação. Wendy se refugiou em meus braços, assustada com os berros de Petrus. Agarrado à menina, chorei. Eu não suportava ver meu amigo naquele estado. Por quê? Será que eu fizera algo de errado? Será que ele pensa que eu roubei Wendy dele? Eu faria qualquer coisa para ajudá-lo, mas ele simplesmente recusava qualquer auxílio. Agressivo e intratável, fazia do nosso lar um verdadeiro inferno. Para evitar confrontos, eu sempre saía com Wendy e, vendo-a brincar feliz, esquecia-me, por alguns instantes, dos vexames e das palavras cruéis que Petrus atirava contra mim.  
            Em um belo domingo comemoramos o 4º aniversário de Wendy. Convidei algumas outras crianças da redondeza e os colegas da gravadora para cantarmos parabéns para ela. Saltitante de alegria, ela agarrava seus presentes, enquanto dava gritinhos de medo toda vez que uma criança estourava uma bexiga. Toda lambuzada de bolo, com um sorriso de orelha a orelha, ela me enchia de beijos grudentos. Mas a minha felicidade não era completa. Como era de se esperar, Petrus não estava lá. Certamente  havia se esquecido do aniversário de sua filha. A bebida era agora seu único “amor” (ou pavor).               
            À noite, Wendy me pegou de surpresa com a seguinte pergunta “Por que Petrus não estava na minha festinha?” Desconcertado, tentei fugir da verdade, dizendo: “ Ele anda meio doentinho esses dias, mas não se preocupe, tudo acabará bem!” Ela então olhou bem dentro de meus olhos e disse: “Doente? Mas toda vez que ele toma aquele remédio daquela garrafa grande ele fica pior!” Sem saber como responder desconversei: “Você conhece a história da abelhinha Lilica?” Seus olhos brilharam e ela logo se esqueceu do assunto e quando Petrus chegou, batendo portas e jogando coisas no chão, ela já estava profundamente adormecida.
            Na manha seguinte ao aniversário de Wendy recebemos um telefonema do Sr Boanerges pedindo-nos que fôssemos urgentemente ao seu escritório. Tentei transmitir o recado a Petrus, mas o momento não era dos mais propícios, decidi deixá-lo na cama. Era melhor que o Sr. Boanerges não o visse naquele estado. Inventaria alguma desculpa, alegaria que Petrus estava de cama, muito doente ( o que não deixaria de ser verdade!)
            Sem saber o que me esperava, fui me encontrar com Sr Boanerges com o coração na mão, temendo pelo pior. Eu sabia que nosso empresário já fora muito compreensivo conosco. Mas paciência tem limite, e quando há dinheiro envolvido na história, as pessoas deixam de ser sentimentais. Em vão tentei argumentar, mas o cheque-mate já fora dado: “Aldebaran acabou para mim. Se quiserem continuar, procurem outra gravadora.”
            De volta ao carro mal conseguia dirigir.  Por tentar conter as lágrimas, o tráfego à minha frente parecia uma grande mancha borrada. Parei o carro perto de nossa casa e debrucei sobre o volante, escondendo o rosto entre minhas mãos. Wendy, atrás de mim, estava muito séria e calada, parecia perceber meu desespero e frustração.
            Eu não conseguia entender como as coisas haviam chegado a tal ponto. A nossa estréia fora tão boa, as gravações, os shows, estávamos quase finalizando nosso segundo disco! E assim, de repente, o castelo se desmoronava. Todos os meus sonhos acabaram, toda a minha esperança de ser um dia famoso derretera-se perante o  “Acabou” curto e grosso do Sr Boanerges. E nem adiantava procurar outra gravadora. Com Petrus  doente e com uma garota de 4 anos para cuidar, eu não tinha condições de começar tudo de novo.
            A vida não era justa! Parecia que  todas as adversidades do mundo se concentravam em mim. Todos que eu amava morriam, tudo o que eu sonhava acabava sempre em cacos.
            Por um curto instante dirigi minha revolta a Petrus: ele era o culpado de tudo! Mas logo me arrependi de tal pensamento: não fora de propósito, Petrus precisava de ajuda, e não de acusações.
            Naquele instante Petrus saiu de casa e, ao deparar com meu carro, fez menção de seguir reto, mas Wendy o chamou. Levantei os olhos vermelhos e fitei meu amigo: “O sonho acabou”. Não precisava dizer mais nada, a desolação era visível em meu rosto. Wendy, num ímpeto, pulou em meu colo e me abraçou: “Papai está muito triste. Você sabe por que Petrus?” A palavra “papai” me deixou atordoado. Wendy sempre nos chamara pelo nome, além disso, Petrus era seu legítimo pai, e não eu.
            Acredito que aquele foi o momento em que meu amigo caiu em si. O peso da vergonha e do remorso estavam estampados em seu semblante. Com os olhos marejados de lágrimas, ele saiu correndo, atravessou a rua e desapareceu na esquina.
            Ficamos os dois a olhá-lo sumir, Wendy, surpresa, eu, esgotado, vazio, incapaz  sequer de esboçar alguma reação.
            Dias depois recebi uma mensagem de Petrus:

“Belth,

Perdoe-me por ter destruído seus sonhos. Você foi meu melhor amigo e não merecia isso. Eu queria poder apagar meus erros e fazer tudo de novo, do jeito certo. Obrigado por tentar me ajudar , jamais esquecerei o que fez e o que ainda  fará por mim.
           Estou internado em uma clinica de reabilitação, mas não sei se vou sair dessa, meu corpo está muito enfraquecido. Procure o Juizado de Menores e adote Wendy. Já encaminhei parte do processo, o resto é com você. Tenho certeza de que ela estará em boas mãos. Jamais diga a ela que eu sou seu  verdadeiro pai, pois o que vale são os laços de amor, e não os consangüíneos.

            Petrus Scarlis”

            Telefonei para todas as clínicas de São Paulo e região mencionadas  na lista telefônica, procurando encontrar  meu amigo. Precisava vê-lo, precisa dizer-lhe que ele não era o culpado pelo fim de Aldebaran. O sucesso é apenas fumaça passageira, que quanto mais sobe, mais rarefeita se torna. Fora assim conosco, seria assim com todos.
            Infelizmente Petrus havia desaparecido. Ninguém pôde me informar o seu paradeiro. O jeito era me conformar. Ainda havia Wendy, e é para ela que todos os meus interesses e aspirações se convergiram.
            A vida precisava continuar e eu tinha muitas pedras pelo caminho. Tinha que pagar um multa ao Sr Boanerges por não ter cumprido nosso contrato; havia uma infinidade de dívidas deixadas por Petrus e logo nossas economias, guardadas com tanto carinho, se esgotaram.
            A vida em São Paulo estava ficando cada vez mais difícil. Decidi, então, vender o pouco que ainda tinha e voltar para Caraguatatuba. Foram-se os anéis, mas ficaram os dedos. Apesar de todas as desventuras, ainda poderíamos sonhar.
            E foi com tal pensamento que voltei ao meu mar, à minha casinha perto da praia. Seria um novo começo, um novo capítulo desse livro imprevisível que é a nossa vida.
            O mar, que sempre me inspirava, recebia-me agora, de braços abertos. Uma sensação confortante apoderou-se de mim e eu me vi correndo de mãos dadas com Wendy, em direção ao mar. Já  perto da água, estanquei repentinamente. Ajoelhando-me ao lado dela, segredei-lhe ao ouvido: “Se você for bem devagarzinho, a onda vai beijar seus dedinhos. Mas é preciso andar na ponta dos pés, sem fazer barulho, senão o mar foge de você”.Encantada, Wendy abriu os braços e, equilibrando-se, deixou a água tocar seus pezinhos.   Sorrindo para mim, ela sussurrou: “Ele veio, papai! Ele veio beijar meus pés!”
            Minha casa estava do jeito que eu deixara quando partira para São Paulo. Parecia uma eternidade! Quanta coisa havia mudado desde então... Afugentando a nostalgia, pus-me a decorar o novo quarto de Wendy. Ela logo se entrosou com as crianças da rua e passava as tardes brincando na praia. Agora entendo quando dizem que crianças são a alegria de uma casa. Sinceramente, eu não sei o que teria sido de mim se Wendy não estivesse comigo. Ela era apenas uma criança, mas uma criança com uma incrível capacidade de amar, de confortar, de compreender o que eu sentia.
            Os dias foram se passando e percebi que tinha que trabalha. Sr Hook estava vendendo seu quiosque e depois de várias negociações, comprei o lugar.
            Na inauguração do Quiosque “Mar dos Sonhos”,  comemoramos o 5º aniversário de Wendy. E, naquele palco, onde tudo começara  eu subi novamente, mas agora, para dedicar à minha querida filha a minha última composição:

Na minha história você entrou
E minha vida você mudou
Tanto tempo eu sonhei
Hoje o meu sonho é você.

Wendy... Minha pequena Wendy

Você é uma nova estrela para mim,
Quem disse que amar não é assim?
Não se esqueça que é tão fácil sonhar.

Wendy... Minha pequena Wendy

As horas passam e eu penso em você
Quero mergulhar em nossas fantasias
Hoje minha canção é somente para você

Wendy... Minha pequena Wendy

            Wendy começou a freqüentar a escola do bairro. Logo aprendeu a escrever, e  espalhava pela casa papéis com desenhos variados, mas sempre acompanhados pela mesma dedicatória: “Papai, eu te amo!”
            Sei que virei um pai coruja, mas isso era de se esperar com uma menina tão linda sempre me paparicando. Juntos descobrimos muitas coisas, o mundo é sempre muito divertido e interessante quando se tem amor. É claro que às vezes nós tínhamos alguns pequenos desentendimentos, mas logo fazíamos as pazes, incapazes de ficarmos longe um  do outro por mais de meia hora!
            De vez em quando eu ainda me via perdido em recordações do passado. Aldebaran já fora esquecida e aquelas minhas ambições agora me pareciam apenas marcas do passado. Apesar de tudo, eu fora muito feliz: conhecera o amor, experimentara o gostinho do sucesso, e agora tinha uma linda filha. A sorte, afinal de contas, não fora de todo contra mim. Eu era, na verdade, um felizardo... 


   
 

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